Parece não haver review que não toque nas
semelhanças entre Okami e The Legend of Zelda. A verdade parece ser mesmo essa,
Okami está repleto de pormenores oriundos do universo do clássico da Nintendo.
No entanto, muitos outros jogos terão já tentado incluir alguns desses
pormenores que fazem de The Legend of Zelda um clássico intemporal.
O que tem Okami de tão especial que o faz um
caso de sucesso mesmo entre fãs de Zelda?
Nas primeiras horas de jogo, Okami introduz
um mundo colorido de personagens de carácter familiar, uma aldeia e um lobo
branco. O lobo é Amaterasu, o personagem principal. Cedo é introduzido o
personagem de suporte (Issun) que acompanha o lobo na sua aventura pelo mundo de
Nippon. Issun depressa se torna no meio de comunicação de Amaterasu com as
restantes personagens. Isto porque, como Link, Amaterasu é personagem mudo. É de
notar que, contrariando a maioria dos jogos do mesmo género, o personagem
principal não é humano, permitindo uma construção de carácter heróico diferente
do que estamos habituados a ver. Segundo a mitologia japonesa, Amaterasu é a
deusa do sol cujo nome significa literalmente “a que ilumina o céu”. Diz a
história (em Okami) que a deusa encarna na estátua de um lobo branco de nome
Shiranui. Seria de esperar que o sexo do personagem fosse masculino.
Curiosamente, e contribuindo para a complexidade do mesmo, o sexo do lobo branco
é indeterminado. De certo que Amaterasu nos é introduzido como deusa, mas
alguns factos ao longo da aventura dizem o contrário. Dois dos factos são a
insistência do personagem em olhar fixamente para partes do corpo de personagens
femininas ou por urinar em pé.

Okami apresenta um modo de jogo e de
controlo únicos. Através do uso de um pincel (Celestial Brush), Amaterasu é
capaz de modificar o ambiente em que se encontra. Invocar o pincel pausa o tempo
e permite ao jogador desenhar símbolos que se traduzem em comandos, entre os
quais: invocar vento, criar arvores, cortar ou transformar objectos, controlar o
fogo, criar objectos em falta, transferir líquidos, etc. Esta técnica é usada na
exploração do mundo de Nippon assim como nos combates. Ao longo da aventura, é
possível desenvolver algumas características de Amaterasu. O jogador poderá
escolher entre desenvolver a capacidade de desenho da personagem, a quantidade
de energia vital, níveis de ressuscitação ou quantidade máxima de transporte de
dinheiro. Algumas armas são também disponibilizadas à medida que se progride na
aventura, sendo possível fazer combinações das mesmas, duas a duas.

As primeiras horas de Okami não lhe fazem
justiça. Depressa nos fartamos do comportamento impulsivo de Issun, dos diálogos
sem voz, dos controlos nem sempre perfeitos, da passividade de Amaterasu que se
reflecte da sua ausência em diálogo e na perda de fluidez gráfica em algumas
situações. É só aquando a saída dos heróis para exploração das zonas exteriores
à aldeia que nos apercebemos que Okami é muito mais.
O jogo é dividido (como em Zelda) em etapas
de exploração que culminam em zonas do género dungeon, onde esperamos encontrar
um boss. No entanto, e ao contrário do que acontece em Zelda, as dungeons nem
sempre se distinguem das etapas de exploração dando ao jogo uma sensação de
continuidade que disfarça o já esperado e repetitivo esquema
exploração-dungeon-boss.

Okami extende-se por mais de 35 horas de
jogo e pode por vezes tornar-se aborrecido. No entanto, rapidamente aprendemos
que é precisamente nesses momentos que o jogo muda e nos surpreende. Não teremos
de contar por muito tempo com a mesma história, o mesmo vilão, as mesmas
personagens ou ambientes, porque rapidamente tudo se altera. Depressa vemos
Amaterasu passar de personagem inexistente nos diálogos para personagem
expressiva e sentimental; deixamos de ver Issun como personagem suporte e
passamos a ver a dupla como um único personagem.

A história de Okami é sem dúvida nenhuma a
sua parte mais forte. Encontramos humor na maioria dos diálogos, mesmo nas
situações mais sérias. Com uma história fragmentada em diferentes etapas, todas
elas diferentes e extensas, seria de temer que se perdesse o fio à miada. A
verdade é bem diferente. O resultado é uma aventura complexa e surpreendente em
que, ao contrário de Zelda, é impossível prever o rumo da acção.
Também as personagens parecem ter sido alvo
de grande dedicação por parte dos criadores. Os "bons da fita", juntamente com
os vilões, ajudam a criar um universo que chega a superar o de Twilight
Princess. Amaterasu, ao contrário de Link, nunca está sozinho e os personagens
introduzidos ao longo da história superam a mera presença em mini-quests,
tornando-se parte da aventura.

Os controlos sofrem do sindrome
"originalidade vence imperfeições". Por vezes será necessário repetir um comando
várias vezes para obtermos o resultado esperado. Não são perfeitos mas podemos
afirmar que as imperfeições são rapidamente superadas pelos pontos positivos.
Passadas algumas horas de jogo, dificilmente nos conseguimos imaginar a jogar
Okami num comando clássico.
O grafismo adoptado em Okami é do género
cell-shaded e encaixa como uma luva na história, nos poderes Celestial Brush de
Amaterasu e no mundo inspirado em paisagens nipónicas. A versão original (PS2)
era caracterizada por um filtro gráfico que se assemelhava a desenho sobre
papel. Na versão Wii, Okami perde o filtro e ganha cores mais vivas ao género de
cartoon. A preferência gráfica entre a versão PS2 e a versão Wii reduz-se ao
gosto pessoal de cada jogador, dado que esta é a única diferença entre as
versões. Poucas são as ocasiões em que podemos dizer que Okami não satisfaz
graficamente. As personagens são de detalhe consistente desde o inicio e os
ambientes são variados, proporcionando algumas das paisagens mais interessantes
que já apareceram na Wii.

A versão Wii não oferece nenhum conteúdo
adicional em relação à versão original (lançada em 2006) e peca nesse sentido.
No entanto, Okami não deve ser visto como uma reedição. É na verdade um título
intemporal que se encaixa em perfeição no hardware da consola da Nintendo.
Okami é sem dúvida nenhuma fruto do empenho
de fan-boys de Zelda - facto assumido publicamente pelos criadores e ex-membros
do agora inexistente grupo Clover Studios. É isso que o torna mágico para além
de uma simples cópia de boas ideias. Amaterasu torna-se numa personagem a
recordar numa luta épica contra uma série de vilões. Será difícil esquecer
Amaterasu de boca aberta e olhos fixos nas meninas que lhe pedem ajuda, da mesma
forma que é difícil esquecer as expressões que fizeram de toon Link um marco no
franchise Zelda.

José Lourenço